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mami

viver | amar | sentir | pensar | lutar | conquistar | desafiar | refletir | descobrir | experimentar | partilhar | aprender | acreditar | sonhar * ser mãe sem me perder de mim *

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2020 (finalmente) chega ao fim

sei que este é o pensamento que muitos partilham.

eu vivo-o com ambiguidade.

2020 foi o ano de todos os desafios.

foi o ano do confinamento, do distanciamento social, da solidão, da incerteza e do medo.

foi um ano de reflexão (imposta), não sei se foi um ano de mudança, mas foi sem dúvida um ano a quem ninguém fiou indiferente.

foi um ano que ficará para a história, esperemos que não seja o início de um período. 2021 traz-nos esperanças renovadas, como se a mudança de ano pusesse-se fim a isto tudo. a vacina chegou antes do fim do ano mas, quando a esperança começa a aquecer os corações, surge uma nova estirpe do vírus que nos estupra a fé e alimente as teorias da conspiração.

no entanto, mesmo sem a meiguice que se esperava de um ano lindo como 2020 (quer na expressão escrita, quer na expressão oral) eu não consigo não lhe estar grata.

2020 trouxe-me um ser cheio de luz. um sorriso fácil que se ilumina só por captar o meu olhar ou ouvir a minha voz. um gargalhada pura e contagiante. uma força da natureza que desafia todos os limites mas que ameniza todas as ânsias.

mesmo com todas as coisas menos boas que este ano me trouxe a nível pessoal, no meio de toda esta loucura mundial, tive muita sorte. apesar dos sustos e das limitações eu e os meus estamos bem. parece-me que perante este cenário de bosta de vaca biológica mais não podia pedir e agradecer a 2020.

 

2020

 

se puderem, se tiverem razões para tal, vejam o copo meio cheio que 2020 vos deixou.

nascer em tempos de covid-19

nasceste num momento histórico a nível mundial. certamente o estudarás na escola; mas o que a mamã te dirá é que foram tempos de muita incerteza e de muita esperança. em que se assistiu ao melhor e ao pior das pessoas.

quando perguntares porque não tens fotografias com os avós, com os tios ou com os primos, dir-te-ei que nasceste só para nós - e que assim foi nos teus primeiros meses de vida. que todos tinham muita vontade de te conhecer, de te pegar ao colo, de fazer macaquices para te ver sorrir…mas que tudo isso teve de esperar, pelo nosso bem e pelo bem dos teus avós, heróis noutros tempos que precisavam agora de ser protegidos e salvos pelo nosso amor.

nasceste numa época em que se apelava ao afastamento social, onde os abraços, beijos e miminhos - tão característicos do nosso povo latino -, tinham de ser adiados por tempo indeterminado.

dir-te-ei que durante muito tempo não exististe para o nosso estado - não havia como te registar e te tornar cidadão português. que o controlo de peso, as consultas de desenvolvimento foram suspensas. nasceste no século xxi perdido algures no início do século xx.

dir-te-ei também que correu tudo bem, que todos os dias falávamos por videochamada com os avós, os tios e os primos – quiçá vimo-nos muito mais e soubemos mais uns dos outros do que com as tradicionais visitas de domingo; que foste um bebé saudável e não tivemos de nos preocupar com as consultas que não estavas a ter; que os papás aprenderam a controlar os seus receios e a lidar com as incertezas dos tempos que se viviam e que juntos, com a tua mana, conseguimos aproveitar o melhor lado desta situação que se impunha: vivemos uns para os outros, construímos castelos de mantas, conhecemo-nos melhor e tornamo-nos profundamente cúmplices.

a mensagem que a mamã te quer deixar, do tempo em que nasceste, é que a vida por vezes pega-nos partidas inimagináveis e é a forma como lidamos com elas que nos trará angústia ou tranquilidade, tristeza ou felicidade.

durante uns tempos foste só nosso, fomos “apenas” uns para os outros, e assim … tornamo-nos os fantastic four!

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